Mobral
Fiz esse exercício que um livro que estou lendo me recomendou para começar a escrever bem. O Livro, que recomendo, chama-se "A Arte da Ficção" de John Gardner.
O exercício é o seguinte: Descreva um estábulo tal como visto por um homem que acaba de perder um filho na guerra. Não se refira ao filho, à guerra ou à morte.
O resultado transcrevo embaixo, que julgem os melhores do que eu, se tenho algum futuro ou não.
Não me recordo da última vez em que passei por esse pedaço de chão, jogado como ele fora para fora da rotina de minha família, esquecido num recanto de nossas terras.
Subi pelo declive respirando o cheiro das ervas ¿ Deus! como elas cheiram bem nessa hora da manhã ¿ e, aos poucos, na medida em que avançava, surgia aquela rústica construção.
Há muito fora abandonada e o tempo com certeza a desgastou, estava mais escura e se via em sua totalidade sinais do castigo infligido pelos elementos: arranhões, rachaduras, ferrugem em suas dobradiças e até mesmo algumas ervas de passarinho e fungos, que cresciam nos lugares mais úmidos. Era o velho estábulo da família, usado nos tempos em que os cavalos eram o principal meio de transporte dos meus avós e que, com a chegada dos primeiros carros, aos poucos foi sendo despovoado, esquecido e, finalmente, abandonado quando a casa principal foi demolida e nos mudamos para outra localidade em nossas terras.
Mas ele não fora completamente esquecido e a sua mera recordação me consola o espírito. A memória dessa velho estábulo traz em seu bojo sensações perdidas, que se intensificam na medida em que a construção desponta: cheiros, costumes, imagens, recordações da primavera da vida o frescor da erva na palma do pé.
De súbito concluo que foi em busca de consolo, de refrigério, que vim fazer essa visita. Em suas tábuas vim buscar proteção, as mesmas que me serviam de murada no forte imaginário das brincadeiras de criança; e em suas vigas busco apoio.
A grama já atingia metade da altura das paredes e o verde claro da erva fresca contrastava fortemente com o escuro da madeira. Aqui e ali brotavam cogumelos brancos, e a alvura desses fungos estranhamente se integravam com o escuro da madeira. Era uma composição de morte e vida que se tornara esse velho estábulo: macabra e maravilhosa; desoladora e consoladora. Onde o novo, o primaveril, se encontra com o velho do inverno da vida e apesar de conflitantes um não anula o outro, com espanto vejo como destacam as propriedades do seu oposto.
O portão já se encontrava caído e as ervas já o escondem dos olhos curiosos dos pássaros que vieram fazer morada nas proximidades, quase tropeço nele ao me aproximar da cerca.
A aspereza daquela construção ressaltava aos olhos e ao tato, sinto sobre a palma da mão a madeira ressequida e rachada lutar contra a inevitabilidade do seu destino, sendo tragada aos poucos pelas brumas do tempo deixando o mundo dos vivos para entrar no dos sonhos.
Mas como lutava bravamente: lembro de meu pai contando como as coisas antigamente eram resistentes, que uma cadeira bem cuidada duraria mais do que uma vida humana. Um aperto no coração me afasta desse pensamento.
O telhado já se encontra roto e os tímidos raios de sol que penetram na escuridão úmida revelam pouco. Um ancinho escorado num canto, um pedaço de pano podre pendurado numa das antigas baias, algumas criaturas correndo para os cantos e ferraduras penduradas pelas paredes. Resolvo não entrar, me dirijo para suas laterais e vejo uma das tábuas caídas. O Velho estábulo começa a perder a batalha, afinal de contas. Pulo sobre a madeira, evitando os pregos que o sol, agora mais forte, revelam sob o capim.
De novo as lembranças do passado, fantasmas de tempos idos me assaltam e dominam. O gosto das laranjas, as mais doces que já existiram, que comia quando menino escorado nessa mesma tábua que agora evito pisar.
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