Revolutions
Contrariando toda a crítica especializada, que vem malhando a última parte da Trilogia Matrix nessas últimas semanas, achei o filme incrivelmente bom, e o desfecho previsível, mas convincente (previsível sim, como não? Neo era o "salvador" e como tal tem que dar a sua vida para salvar a humanidade). A única parte que não apreciei foi o desfecho, o céu estava carregado demais com photoshop... mas... bem, está desculpado, afinal, foi a menininha que fez.
Agora dizer que apreciei o filme é uma coisa, ele é uma primazia de elaboração e execução, mas outra coisa é dizer que aprecio a mensagem por detrás do filme.
Felizmente sei diferenciar uma coisa da outra, e consigo apreciar um filme bom com mensagem ruim, assim como aprecio filmes ruins com mensagens boas. São duas realidades diferentes, nem sempre relacionadas, a mensagem e sua maneira de ser transmitida.
A mensagem de Matrix é interessante, no sentido antropológico, pois é um reflexo bem puro da visão teológica do homem pós-moderno, ou seja, uma visão confusa, incompleta, rasa, conflitante, pirotécnica. Cheia dos seus lugares comuns (o "sempre a uma saída" do Chaveiro, ou o "tudo que tem um começo, tem um fim" do Oráculo), procura empurrar num pacote explicações para tudo o que parece anormal, como os fantasmas, lobisomens e fenômenos paranormais. Essa é inclusive uma das marcas das seitas, não retiram sua autoridade nem da experiência nem da revelação, mas sim das explicações, mesmo que implausíveis, que alegam ter sobre a existência humana.
Interessante notar que a única conversação interessante, mais profunda, que ocorre no filme é de cunho Cristão. A questão do livre-arbítrio ou da predestinação, ou o Arminianismo ou Calvinismo, como essa discussão é conhecida no seio da igreja perneia a cristandade durante anos, com discussões acaloradas entre gigantes, como foi o caso de Martinho Lutero contra Erasmo de Roterdã.
Somos fadados a fazer o que fazemos? Temos realmente escolha, ou fazemos o que estamos predestinados a fazer?
A resposta mais madura que o cristianismo produziu sobre essa questão pode ser compartilhada no filme: Temos sim responsabilidade sobre as decisões que tomamos, somos responsáveis por elas e sofremos as conseqüências a curto, médio e a longo prazo, quando a tomamos, sejam elas negativas, sejam positivas. Mas quando chega ao ponto de fazer uma escolha, só existe uma que nos parece certa a fazer e é ela que tomamos, mesmo que nos arrependamos depois, quando a situação for diferente.
Predestinação ou Livre-arbítrio é questão de ponto de vista, do nosso lado, do lado de cá da eternidade, vemos como decisões que tomamos livremente, do ponto de vista de Deus, onde o tempo não tem sentido, onde se vê o universo nascer ao mesmo tempo que se enxerga uma estrela morrer trilhões de anos após, todas as decisões estão tomadas desde antes que o mundo existisse.
No final, Neo descobre que somente uma decisão poderia salvar a humanidade, ele toma essa decisão, mas será que ele teria tomado outra?
Uma outra face pós-moderna que me incomoda é a superexaltação do eu. Ao ser interrogado pelo agente Smith sobre o "porquê" dele não desistir, se foi por amor, lealdade, honra ou qualquer outro sentimento humano, o Herói pós-moderno simplesmente responde: "Porque eu escolhi" (numa alusão ao próprio Neo, quando respondeu numa luta passada: "Meu nome é NEO"). Para Neo o motivo dele estar lutando pela existência da humanidade era apenas uma questão de escolha. O sentimento pela sua amada, o dever pela preservação da sua espécie, a honra e o privilégio de ter o destino da humanidade em suas mãos não significavam nada, nem era a sua motivação. Apenas importava o fato de que ELE tinha escolhido ser assim.
Enquanto isso, o "Arquiteto" que prefigurava o Deus criador, era uma figura de menor importância a ser desconsiderada, apenas um parceiro ocasional numa empreitada em que Neo não estava contente de estar nem inclinado a se relacionar. Um deus tão pequeno assim só poderia ser inspirado no Budismo e nas seitas orientais.
Foi num artigo da revista "Ultimato" que vi o título de uma matéria que dizia: "Cada teologia tem a sociedade que merece". Muito bem colocado.
Só pode ser culpa da igreja, que não tem feito o seu trabalho direito, o fato da sociedade cristã, o mundo ocidental, saber tão pouco do Cristianismo. Por exemplo, a alusão dos dois pólos um negativo e outro positivo igualmente poderosos para "balancear" o universo, que foi figurado nas figuras de Neo de do Agente Smith não é teologia cristã, e sim provêm do Tao. Enquanto no Tao, o bem não pode existir sem o mal, assim como a luz não existe sem as trevas, no cristianismo se ensina que o mal é que não pode existir sem o bem, uma vez que o mal é apenas o bem pervertido. Na verdade a luz não precisa das trevas para existir, mas o que seria das trevas sem a luz? As trevas são a ausência de luz, mas a luz não é a ausência de trevas.
Mas de alguma forma, essa idéia errônea foi trazida para o seio da nossa sociedade, e se vê a Cristo como um igual só que "bonzinho" do Anticristo e o Diabo como um contra-ponto de Deus, quando na verdade os dois não são para se comparar. O Diabo é tolerado por Deus, e isso, apenas por enquanto.
Essas são algumas ponderações que tive sobre o filme, talvez interesse para alguém, provavelmente não. Mas... bem, se esse comentário tinha que sair, essa é a hora mais oportuna para escrevê-lo, esperando a minha próxima partida de "Neverwinter Nights".
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