sexta-feira, 8 de agosto de 2003

Programa de índio

Creio estar ficando afetado demais.
Na minha visita a minha cidade natal a turma de onde trabalho, que foi comigo, combinou uma noite numa das "festas" locais. "Festa" é a maneira que a gurizada chama o que antigamente era um clube de dança. Hoje em dia é assim, não se vai mais a um local definido, seja ele um prédio ou ao ar livre, o local, a estrutura, a tradição não importa mais, as pessoas não procuram mais um "lugar", mais sim uma "situação". Não se vai mais no Clube Caixeiral, ou no Recreativo, mas sim nas "festas".
Essa gurizada, como toda a juventude, sofre da eterna mania de reinventar a roda, quando se combina qualquer coisa eles falam assim: Vamos na festa! - que festa? - pergunto - vamos no "Spirit" - respondem - eles tão fazendo umas festas boas. Daqui a três meses, o "Spirit" deixa de fazer "festas" boas, e os donos das festas bageenses (sempre a mesma turma) fecham esse clube e abrem outro, as vezes no mesmo lugar, com algum nome tipo... "Mil e uma Noites" e a festa se muda pra lá.
Bem, fui pra "festa" esse fim de semana, no "Spirit", veja bem, e de alguma forma aceitei esse baita programa de índio.
Fui porque queria ter mais contato com o pessoal com o qual eu trabalho, achei que seria divertido, ledo, ledo engano.

Pra começar que eu não faço esse tipo de coisa desde adolescente, quando ia na Buzz em Roppongi, disco de estrangeiros em Tokyo.
Depois disso so fui umas vezes, mas era um programa diferente, não ia com amigos, ia com minha esposa e os amigos dela.

Bem, primeira vez então em uns 11 anos que eu entro numa "festa".
Não sei quem escreveu, acho que foi Oscar Wide, que uma pessoa, um estrangeiro "nunca volta para casa", depois de passado algum tempo. Pois ou muda o lugar onde ele vivia, ou então ele mesmo muda, a ponto do lugar que se sente falta não trazer mas as mesmas sensações de outrora.
Pois eh, o que antes, na minha juventude, me trazia algum estímulo e prazer, agora me causa uma estranha e intensa repulsa.
O lugar me agride, a começar pela decoração, visivelmente elaborada como uma tentativa de causar espanto, te tirar um "Ohhhh!" das pessoas. Em lugar disso, me causou uma impressão de mediocridade, com seus fiozinhos pendurados, arames enrolados, cores pasteis nas paredes, luzes jogadas na cara. Prefiro decorações que são feitas pensando em deixar a pessoa a vontade, que esconda a pessoa, só revelando ela quando se aproxima o suficiente de alguêm, que deixe a pessoa com ela mesma e não desvie a atenção para algum canhão de luz jogado na cara.
Me agride a atitude das pessoas, procurando se vender pelo melhor preço, se expondo numa assombrosa atitude marketeira, oferencendo um produto que muitas vezes não têm, e te levando a tomar a mesma atitude.
Talvez o que mais me agrediu naquele ambiente foi mesmo essa "coerção" subentendida de que você está lá para ser legal, ser bacana, e se não for, ou ao menos não parecer assim, se você não agir como todos, ser uma com a multidão ululante, então você está estragando a festa, está tendo uma atitude indesejável e não pertence nem aquele momento e lugar, com suas luzes e fiozinhos e arames armados.
Tudo me pareceu barato, desconfortável, agressivo, e sem classe. E o incrível é que a intenção era exatamente a contrária, a "festa" se vendia como um produto exclusivo, confortável, sofisticado e de muita classe. Tentem enganar outro.
Bem, pensei, vamos ver a bebida daqui, quando a "festa" está ruim, uns drinks sempre salvam a parada.
Pedi um coquetel de frutas, a uma das três "Bargirls", essas sim, produtos dignos da beleza bageense, terra de mulher bonita, as três tinham aquela mistura tão apreciável e fina de beleza exótica com clássica que caracteriza as garotas daquela região, Bagé ainda vai dar ao mundo uma Gisele Bündchen.
Mas ao chegar o tal do coquetel, ele me vem num copo de plástico... num copo de plástico! NUM COPO DE PLÁSTICO!!
Bebi a infusão, sem mais ter qualquer esperança de ter algum momento agradável por lá. Meus amigos já tinham comprado a festa, já faziam parte dela e nela se integrado, eles não precizavam de um deslocado para se preocupar. Falei que iria procurar conhecidos da cidade na festa, o que era verdade, procurei-os até a porta da saída, e como não achei nenhum, tomei o caminho de casa 15 minutos depois de ter entrado pela mesmo porta que saí.

Mas a noite não estava de todo perdida, não senhor, cheguei em casa, ou melhor, na casa de minha mãe, e peguei o livro que estava lendo na viagem: "Marca" de Francesc Petit, que trata de logomarca, design, etc. numa perspectiva da relação de uma marca com sua empresa, citando vários exemplos do mercado. Leitura interessante, cometia o crime de estar repleto de lugares-comuns sobre design e Petit, apesar de se achar o tal, me parecer meio datado, tipo anos 60, com seus bichinhos-propaganda (o frango da sadia eh um exemplo e o gato da DPZ parece tirado de uma história em quadrinhos antiga, se lembram do gato Félix?) e suas logomarcas semi-insinuantes.
Mas pela sua abordagem única, tratando dessa simbiose marca-empresa, o livro se torna uma leitura aprazível e até recomendável.

Minha noite, minha "festa" começou ai, terminei de ler o livro antes de amanhecer. Sem dúvida, achei o meu lugar. Fui dormir plenamente satisfeito.

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