quarta-feira, 9 de julho de 2003

Deixem o armário em paz

Baita texto do Gulherme Fiúza que transcrevo em parte aqui:

Ao derrotar São Paulo na disputa para sediar as Olimpíadas de 2012, a cidade do Rio de Janeiro encontrou-se mais uma vez com sua maior vocação: exibir-se lânguida como uma garota de Ipanema de biquíni a caminho do mar. Nada excita mais o Rio do que ouvir o mundo fazendo "fiu-fiu" para suas curvas naturais. É a revanche contra os paulistas, que no duelo das Paradas Gays tinham-se mostrado quantitativamente muito mais exibidos que os cariocas. E nessa disputa de alegria aritmética, os não-exibidos acabaram enquadrados como uma espécie de traidores da pátria.

Tanto na Avenida Paulista, quanto na Avenida Atlântica, celebrava-se a presença dos gays ¿assumidos¿, e condenava-se a ausência dos que não tinham ido desfilar sua opção sexual para as câmeras e os transeuntes. Se não estavam lá é porque não tinham coragem de ¿sair do armário¿ ¿ estavam escondidos, recalcados. De repente, famosos como Miguel Falabella, Diogo Vilela, Marina Lima ou Zélia Duncan passaram a ser tratados como desertores, por não saírem às ruas num domingo de sol para dizer ao mundo que se orgulham de ser gays.

Estariam Marina e Falabella no armário? Quem garante que não estavam à mesa, ou na cama? Em outros tempos, a resposta seria uma só: isso é problema deles. Mas hoje, não. A ética politicamente correta quer meter o olho nos buracos das fechaduras e catalogar o comportamento de todo mundo. Na ditadura da transparência, ser discreto tornou-se uma opção altamente suspeita.


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Da minha parte tenho certeza que Porto Alegre seria uma cidade MUITO melhor para sediar as Olimpíadas do que o Rio ou São Paulo.
E a parada gay daqui nem mesmo é grande coisa. Quem sabe fazer parada mesmo é o "Movimento dos Pequenos Agricultores" e "Movimento dos Trabalhadores Desabrigados" (ou sem teto, não me lembro bem) que invadiu o Centro Administrativo do Estado hoje e tentaram impedir que os funcionários trabalhassem. Foram xingados e hostilizados pela maioria dos funcionários, que não gostou de verem seu local de trabalho invadido por baderneiros. "Enquanto vocês ficam protestando para ganhar uma casa, nós trabalhamos para merecer essa casa". Disse uma funcionária indignada.
É difícil julgar do ponto de vista de uma pessoa que têm capacidade para trabalhar, progredir e conquistar uma casa própria e do ponto de vista de quem não têm capacidade para tal, que dependem mesmo do dinheiro do governo para poder morar em algo melhor do que pontes ou viadutos.

De certa forma eles têm razão, foram nossas políticas que produziram milhares não de miseráveis, mas de perdedores, de pessoas que só conseguem ver no governo uma única esperança de aprimoramento, não pessoal, claro, mas de patrimônio. Agora essa turma que a nossa própria política produziu volta para cobrar a conta, é inevitável.

Eu que desde criança aprendi do meu pai a não esperar nada do governo, desde cedo entendi que o caminho do trabalho e aprimoramento pessoal é o único caminho verdadeiro para a dignidade.

Essas pessoas tentam receber dignidade na forma de uma casa própria, mas dignidade não se recebe, se conquista.

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