Querido Diario
Meu despertador está regulado para tocar as 7:00 da manhã. Na primeira semana se tratava de um serviço hérculeo a simples tarefa de me levantar. Tinha tonturas, minhas pernas não respondiam propriamente e uma estranha força, algo magnético, me prendia a cama. Precisava de mais força de vontade para me deslocar do local do meu sono, do que a necessária para realizar todas as tarefas do dia juntas.
Felizmente depois de regular meus maus hábitos dos tempos de ócio, como o de deitar sempre depois das 3 da manhã, a primeira tarefa do dia não me é mais tão penosa. De fato, acordo sempre 10 minutos antes do relógio tocar, e de alguma forma, arranco um pequeno prazer em não precisar dos seus serviços. Ainda sonolento, mas com um pequeno sorriso nos lábios, desligo o maldito que tanto me castigou nas manhãs frias, sem escutar o seu terrível som. Ah! a vitória sempre tem paladar doce, mesmo em pequenas doses.
Tomo banho e termino minha higiene matutina em menos de vinte minutos, e me visto preparo minha saída muito rapidamente, sendo que as 7:30 já estou pronto para sair, mas, bem, é cedo demais, e espero em frente à TV por 10 minutos no mínimo todos os dias.
Levo exatos 45 minutos da minha casa até o trabalho, e esse pequeno momento tem se tornado preciosos para mim.
São 15 minutos de caminhada da minha casa até o ponto do ônibus, esse é o tempo que medito, reflito e oro, coloco em oração questões que me perturbam e procuro escutar respostas para elas.
Essa época de inverno primaveril, com manhãs frias mas não em excesso, onde o frio não incomoda, mas parece realçar a beleza da natureza, me agrada profundamente. Logo chego na parada do ônibus, cinco minutos antes dele chegar, e espero resignado o veículo despontar no fim da rua. Dois minutos depois chega o meu companheiro de viagem, que toma o ônibus junto comigo e salta em algum lugar que ignoro, amanhã vou arriscar dar-lhe um bom dia.
Se a caminhada me enche de alegria, a viagem no coletivo estende essa alegria. Pego o ônibus sempre com metade da sua capacidade, onde sobram assentos e posso escolher o que mais me agrada. Sento-me sempre na última fileira, perto da janela, onde abro uma fresta para que entre um pouco de ar fresco. Puxo um livro que estou lendo com grande prazer, são os "Contos" de Tchekhov, que adquiri por míseros 11 reais numa banca de revistas. Hoje passei da metade do livrinho, e notei que a história situada exatamente no meio dele, têm uma qualidade, uma soma de profundidade e "liberdade", por assim dizer, muito maior do que as anteriores, é o "Uma história enfadonha (de um homem idoso)" Em que o russo descreve os últimos dias de um velho e renomado professor de medicina de uma universidade russa de destaque, e a sua relação com uma orfã da qual foi tutor, uma menina adorável, cheia de vida, que cresceu e virou atriz, que teve no seu maior amor, a sua maior decepção, e que se recolheu em seu íntimo angustiado perdendo para sempre a sua vivacidade.
Me interessou no relato de Tchekhov a intimidade com que ele descrevia tanto o meio da medicina quanto o do teatro, me questionei por algum tempo porque tamanha diferença de qualidade, de autoridade, entre esse conto e os demais. Foi até me lembrar de que ele fora médico, que a sua obra de maior renome foi uma peça de teatro, e que, segundo as suas próprias palavras tinha "a medicina por esposa, e a literatura por amante" ai entendi tudo, claro que ele iria tratar esse conto, que fala tanto sobre si mesmo, com inigualável propriedade.
Termino o conto, tem outra história logo a seguir, evito lê-la, prefiro terminar de "digerir" essa "história enfadonha" que me causou tão boa impressão.
Como a Graça de Deus sempre é super abundante, as alegrias que desfruto nas minhas manhãs não terminam ai, têm ainda o percurso que percorro todo dia no "meu" coletivo.
Passo por pontos interessantíssimos de Porto Alegre, com certeza todos os "pontos" turísticos estão lá. Pego minha condução no bairro Moinhos de Vento, por si só um cartão postal, passo pela avenida Farrapos, com certeza a avenida mais famosa de Porto Alegre, vejo a estação rodoviária, o cais do porto, o Mercado Municipal. Lá o ônibus faz uma parada de 5 minutos, aproveito para exercitar um costume antigo, o de observar as pessoas e as coisas. Discreto, procuro ver de "canto de olho" as faces, as atitudes, as roupas, se existe pressa, se tem sentimentos a flor da pele. Observo muito as mulheres, achava que era por algum atrativo de fundo sexual, mas hoje avaliei bem a situação e percebi que não tinha nada a haver com isso. Não lhes observava o corpo, mas sim os rostos, as expressões os passos. Além disso o a sensação que obtinha com a observação nada tinha de sensual, mas sentia mesmo era curiosidade, interesse. Se via alguém preocupado, me preocupava também, se notava angustia, me angustio um pouco, se via um sorriso nascer naturalmente num rosto, eu "roubo" esse sorriso e levo comigo pelo resto do dia, coloco ele no meu bolso, e tiro ele quando alguma coisa ruim acontece.
Noto como as mulheres têm um rosto muito mais preocupado do que os homens, elas procuram não olhar para os lados e parecem transmitir indiferença enquanto andam. Já os homens, alguns deles, andam como chacais, olhando ao redor, como que farejando, de longe notam uma mulher bonita, ou com bons "atributos corporais" e quando vêem uma, ficam como que hipnotizados, não tirando o olhar de cima dos corpos, sim, porque eles não vêem uma mulher, mas sim seu corpo, e mesmo isso em partes separadas "uma bunda", "um par de seios", "duas pernas" tudo isso se movendo indiferentes, gélidos, distantes, indiferentes, a fome dos homens.
Atribuo a atitude do primeiro grupo, a atitude do segundo e me lembro como me senti constrangido quando numa cidade do interior do Japão todos ficavam me olhando como se eu fosse um alienígena.
A viagem segue, e passo ainda pelo museu do trabalho e pela Usina do Gasômetro antes de chegar ao prédio onde trabalho, exatamente as 8:25.
Espero pelo saguão do prédio a chegada do elevador que me levará ao meu posto, olho a minha volta e vejo um cartaz interessante: "Zeca o Trapalhão" Show de humor para os funcionários do IPE.
Fico olhando para o Zeca o Trapalhão, com seus enormes óculos com lentes grossas, sua face redonda, por barbear, boçal. Seu paletó quadriculado e sua camisa polo amarela e poída. Zeca o trapalhão não me parece diferente de qualquer funcionário público, Zeca o trapalhão pode ser o futuro eu, se me deixar enredar nas teias do corporativismo. Por algum motivo, "Régis o Trapalhão" me soa simpático, quando percebo isso, me corre um calafrio na espinha.
Chego ao meu setor na exata hora que devo chegar, 8:30, assumo o meu computador, que divido com dois estagiários, que, normalmente enquanto eu trabalho se penduram atrás de mim vendo o que estou fazendo. Os dois tem futuro, demostram interesse e aprendem rápido. De um deles recebi o maior elogio desse ano: "Um dia que fiquei com o Régis valeu quase um semestre de aprendizado na faculdade" - Of course my friend! But very kind of you.
Hoje foi um dia particularmente puxado, recebi uma revista mensal, um flyer A4 frente e verso e um informativo eletrônico para fazer e entregar impresso até amanhã a tarde. A proposta da revista está quase pronta, falta apenas a contra-capa e quanto aos outros dois, bem, já estão prontos para apresentar. Quando vi o resultado no final do dia, dei um sorriso mais largo do que eu dei para o despertador, meu dia estava ganho.
Seis horas, hora de sair. Qual é a vantagem de trabalhar no serviço público se você não puder sair no horário? Mesmo faltando apenas a contra-capa para entregar, peguei minhas coisas, e sai, estou dentro do prazo afinal de contas.
Pego o ônibus novamente, o mesmo ônibus que pego de manhã, só que minha disposição é bem outra. Não têm mais o frescor e o brilho da manhã para me alegrar, apenas o lusco-fusco da noite, com suas luzes que não revelam o suficiente. Tudo é enfadonho, tudo é falso, tudo é "pegajoso" (é assim que descrevo, na falta de substantivo melhor). O ônibus está invariavelmente lotado e não posso escolher onde sentar, quando posso sentar imediatamente. Algumas paradas depois que embarco sempre desce um número considerável de pessoas, tomo algum assento e pratico uma arte milenar japonesa que aprendi nos meus 11 anos de Japão, a arte de dormir no coletivo. Os japoneses são tão proeficientes nessa arte, que nos trens eles chegam a dormitar em pé, agarrados em pequenas argolas suspendidas no teto e, mesmo no mais profundo sono, eles nunca perdem a parada onde devem descer e acordam instantes antes dela. Dominei essa arte, a ponto de dormir no banco com um homem sentado ao lado, e acordar um uma senhora em seu lugar sem que eu perceba a troca, mas momentos antes do meu ponto de descida, o mesmo instinto que me acorda 10 minutos antes do relógio despertar, me avisa que a minha hora está chegando.
Na ida para casa passo na padaria Listrô e compro uns pães que uso no lugar do arroz em minhas refeições, é mais fácil de preparar e é mais gostoso. Nas sextas-feiras me incomodo com o número exagerado de pessoas que se amontoam na "Calçada da Fama", fico com receio de bater com minhas compras em seus ilustres trazeiros ou nas suas nucas, uma vez que se assentam no meio da calçada. Meu instinto bairrista se rebela: - O que esse bando de gente está fazendo no "MEU" bairro?
Chego em casa, dou um beijinho de boa noite na minha querida, trocamos informações de como foi o dia de cada um, ela está assistindo "Nikita" e eu me dirijo para o Mac, de onde teclo agora. Noto que a internet está funcionando depois de dois dias sem poder conectar, visito alguns sites e blogs, os mesmos de sempre, só visito novos sites por indicação, não agüento mais perder tempo "garimpando" novos sites na Web. O blog do Alexandre está com um post muito divertido, como sempre e vejo que o Polzonoff está pedindo que alguém melhore o visual do blog dele. Pensei por um ou dois segundos se me candidatava para a missão. Desisti e achei absurdo até mesmo ter considerado a questão.
Converso mais um pouco com minha mulher, vejo umas fotos que ela tirou na Bahia, e infelizmente era tudo como eu previa, as casas, as pessoas, as situações. As fotos me causam um pouco de enfado, embora a narrativa vivida da Roxzana me traga alegria. Vejo as fotos rapidamente e me dedico mais a escutar a minha esposa.
Os alunos de inglês dela chegam para mais uma aula particular, me retiro da sala depois de cumprimentá-los.
Abro uma garrafa de vinho barato, "Contry Wine", está escrito no rótulo, e penso: Pelo menos o rótulo é bonitinho.
Levo o cálice a boca, imaginando se tratar de um vinho do porto, mas a realidade me tira do sonho assim que o líquido escorre pela garganta.
São 23:00, de acordo com meu novo código de conduta, é a hora que vou para a cama, onde fico mais 30 minutos lendo a Bíblia e orando (isso mesmo, esse papo esquisito de "creio em Deus, mas não sigo religião não é comigo", não consigo ser incoerente nem preguiçoso).
Quando as 23:30 eu dormir, se encerra o meu dia que descrevi aqui para vocês meus leitores, não sei por qual motivo.
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